Francisco e Manuel. Abandonados
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- Category: Accidentes
- Published on Tuesday, 30 September 2014 06:09
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Publicado em 2014-09-22
JORNAL DE NOTICIAS
Francisco Santos tinha 45 anos. Você não o conhece. Manuel Carinha era nove anos mais velho. Você também não o conhece. Foram engolidos pelo mar. A 17 de abril. Eram pescadores das Caxinas. Não foram enterrados pelas mulheres, que há cinco meses carregam no corpo os trajes negros da viuvez e sustêm no peito a amargura de quem já sofreu tudo mas não pode fechar o ciclo do luto. Não ter o corpo é não ter uma campa. É não ter onde chorar. E onde rezar. É não ter uma certidão de óbito para poderem ser legalmente viúvas e beneficiarem de uma pensão. É verem impedido o acesso dos filhos a uma bolsa universitária, porque o salário do pai ainda "conta".
Francisco e Manuel foram duas das cinco vítimas mortais do naufrágio da embarcação Mar Nosso, nas Astúrias, Espanha. Os corpos nunca foram encontrados, embora haja um "elevado grau de certeza" de que permanecem presos à embarcação.
Três dias de prospeções - e possível resgate dos homens - teriam um custo de 300 mil euros, na avaliação da presidente da Câmara de Vila do Conde, Elisa Ferraz, que consultou o mercado. Porém, nestes cinco meses de vazio para estas famílias, nada de objetivo foi feito. O dinheiro, claro está, falou mais alto. E aqui berrou a plenos pulmões. O armador, espanhol, pôs-se de fora, depois de inicialmente ter anuído a pagar o resgate. Percebe-se: os 300 mil euros gastos abateriam no valor que a seguradora lhe irá pagar pela embarcação. 700 mil euros menos 300 mil euros dariam "só" 400 mil euros. É dinheiro. Muito dinheiro.
Porém, a decisão do armador, condenável porque desumana e calculista, respalda-se na legislação: ninguém pode efetivamente obrigá-lo a custear o resgate. E aqui entramos num impasse. As famílias não têm poder aquisitivo para financiar a missão, a associação que os representa idem. Resta-lhes pedir (como se pedir, aqui, fosse necessário) ajuda ao Governo da Nação, na esperança de que uma alma caridosa se digne a ser digna.
Mas, surpresa das surpresas, o apelo desesperado feito das Caxinas não chegou ao Terreiro do Paço: nem um ai, nem um ui, nem um "vamos analisar a situação e agir em conformidade" ou um "vamos diligenciar junto dos nossos representantes diplomáticos em Espanha", blá, blá, blá. Nada.
Oficialmente (e quero crer oficiosamente), para o Governo português, para a ministra do Mar e das Pescas, Assunção Cristas (a mesma que enche a boca com a "economia do mar"), para o embaixador português em Madrid, José Tadeu da Costa Soares, nada se passa. A culpa só pode ser dos assessores, que não andam a fazer o "clipping" correto.
Se assim for, aproveito este espaço para pedir desculpas (que raio de modinha) ao Governo, à senhora ministra e ao senhor embaixador. Não tenho qualquer dúvida de que a partir de hoje vão fazer tudo o que estiver ao vosso alcance para trazer de volta os dois homens que o país abandonou no fundo do mar das Astúrias. Bem hajam pela generosidade. E castiguem depressa esses assessores.

